Minha experiência matemática

Não, esta não é uma história de amor, não vou me declarar à Matemática. Mas vou dar meu testemunho a partir de 6 exemplos que tive até agora.

Sou formado em Matemática, tenho licensa para ensinar. Nunca fui bom em Matemática, mas sempre a respeitei. Sempre pude entender que a Matemática tinha a sua importância, mesmo em meio à toda complicação e abstração que envolvia as aulas que eu assistia. Tive muitos professores de Matamética. Poucos deles eram bons, um ou outro realmente gostavam dela. Raros eram aqueles que gostavam de Geometria.

Meu pai não era formado engenheiro, mas sabia muito mais sobre o assunto do que qualquer outro especialista da área. Ele era muito bom em matemática, era praticamente um matemático. Mas o que sempre me chamou atenção nele, era a sua capacidade de abstração na resolução de problemas. Meu pai era capaz de criar projetos complexos e bem resolvidos, utilizando a Física, a Matemática e a Geometria. Este é o meu primeiro exemplo da aplicação da Matemática e como ela é útil.

Durante minha vida escolar fiquei de recuperação em Matemática. Fiquei de recuperação na quinta, sexta, sétima e oitava séries. Eu estudava bastante, minha mãe me disciplinava no estudo da matéria, mas eu não conseguia aprender. Eu sabia que estudar aquilo era importante, mas parecia que a Matemática não entrava na minha cabeça. Quando cheguei ao segundo grau, me descobri em meio à Matemática. De repente tudo mudou: comecei a ir bem, parecia que tudo o que eu estudara estava alí, e fazia sentido. Depois de muito pensar sobre esta situação – de transição e transformação, descobri que o problema era o local em que eu estava: no primeiro grau, eu morava na escola onde eu estudava e a maioria dos meus colegas de turma não me aceitavam como amigo. Por isso, eu tinha muitos bloqueios de aprendizagem. Quando fui para o segundo grau, praticamente empurrado (porque apenas uma professora acreditava em mim), as coisas começaram a melhorar. Eu tinha mudado de cidade e naquela época eu morava em uma cidade do interior. E tudo mudou. As pessoas não me deixavam à parte e me aceitavam, fiz muitas boas amizades. Minha situação como pessoa era completamente diferente, e na escola eu ia muito bem, eu me saía bem em Matemática. Este é o meu segundo exemplo da Matemática, como ela é uma referência da sua capacidade de interagir com o mundo.

Na minha cidade, enquando eu estava terminando o segundo grau, logo foi inaugurado o primeiro curso de Licenciatura em Matemática. Fiz o vestibular e passei. Neste momento, eu não fazia idéia do universo de possibilidades em que eu estava me inserindo. Tudo era novo: o ambiente, as idéias, as pessoas, o propósito e a vontade. Estudar Matemática durante quatro anos e me tornar um professor, um matemático. Neste período, comecei a formar a minha massa crítica sobre o que é a Matemática, sobre o que significa ser professor, sobre o que é fazer Matemática e atuar como matemático. Nesta época também, tomei contato com o conhecimento científico e também descobri que a pesquisa é lentamente filtrada até chegar à sociedade. Nesse processo muito se trabalha, muito se produz e pouco chega à sociedade. O Método Científico foi um dos principais tópicos que me fizeram olhar a Matemática como um profissional:

um matemático aplica seus conhecimentos sobre a matéria e modela o espaço a seu redor, torna questões em modelos que se aproximam cada vez mais da realidade, torna soluções abstratas em respostas simples.

Ao mesmo tempo, descibri que a Filosofia é parte integrante do pensamento matemático, muito mais do que isto: ela é indissociável do pensamento abstrato, inerente à todas as questões matemáticas, desde teoria à solução de problemas. Com o tempo, percebi também (mesmo que para uam mente matemática ainda muito crua) que há, basicamente, duas culturas entre os matemáticos: os fazedores de teorias e os resolvedores de problemas. Sinceramente ainda, não sei em qual cultura ou categoria estou inserido. O que sei, é que sou um matemático pensador. Este é o meu terceiro exemplo da Matemática, sobre como a universidade (de idéias) abriu a minha cabeça para as possibilidades que viriam.

Depois de formado, comecei a trabalhar. Eu dava aulas em dois colégios estaduais. E foi durante um ano dando aulas em escolas públicas que pude perceber o que eu queria para o meu futuro. A escola, no meu entender, nunca acompanhou as mudanças da sociedade. Em alguns momentos, penso que a escola é uma entidade falida, pois não possui a mesma estrutura que os jovens e adolescentes encontram em outros lugares que frequentam. Tive muitas experiências durante este ano que me fizeram filtrar aquilo que almejava para o futuro. Participei do projeto Escola da Família e pude perceber o quão carente eram as pessoas que a frequentavam e quão carente era a própria escola, carente de seu pai maior, o estado. Quando a escola recebia melhorias, como uma sala de informática, esta não era utilizada porque os dirigentes temiam que os equipamentos se estragassem. Quando a escola recebia melhorias de infra-estrutura, muitas vezes os próprios alunos não sabiam valorizar. Professores mal pagos e sem condições de trabalho disputando a atenção dos alunos com os celulares, cameras fotográficas, programas de televisão etc, faziam com que o ambiente escolar sucumbisse à própria prerrogativa de que os pais é que devem dar a edução à seus filhos: mas muitas vezes esses filhos não tinham pais e eram órfãos também da própria escola, que não estava preparada para lhes atender. Mas na escola eu também percebi que alunos interessados fazem muito por merecer. E muitas vezes é na Matemática que eles se revelam.

A Matemática é incrivelmente instigante, ela é capaz de transformar o universo daqueles que lhe pertencem, ela pode fazer muito por você.

Como jovem professor, tive a oportunidade de quebrar o estigma de que a Matemática é uma matéria chata e enfadonha. Os alunos, aos poucos, começaram a entender o porquê de algumas coisas. De repente, conceitos de estatística faziam sentido, porque era realmente engraçado e esclarecedor medir a estatura de cada aluno, calcular médias, fazer histogramas e tirar conclusões dos resultados. Os jovens alunos querem interagir com as novas tecnologias. Por que não utilizar calculadoras, computadores, máquinas fotográficas e o celular também, por que não criar a página da escola e aprender uma nova linguagem de programação, por que não dar aos jovens a oportunidade de aprenderem na escola? Esta é uma época muito preciosa para que cada um (alunos e professores) possa descobrir o seu talento, os seus gostos. Há uma troca de idéias muito frequente, experiências que vem e vão nas duas mãos, mas que parece estar no lugar errado. Este é o meu quarto exemplo da Matemática, como ela é capaz de transformar a realidade daqueles que a aceitam como oportunidade.

Depois desta experiência na escola, resolvi voltar a estudar. Ser professor a vida inteira, talvez não fosse tarefa para mim, mesmo acreditando no poder transformador da Matemática. Acho que ser professor é uma tarefa de grande responsabilidade, e talvez naquele momento eu não estivesse preparado (maduro o suficiente) para encarar a realidade. Entrei no mestrado e descobri um novo universo da Matemática, a aplicação. Tudo aquilo que meu pai fazia, que os alunos compreendiam e que eu tentava explicar, começava a tomar uma nova dimensão. Neste momento eu estava passando de fase, e inaugurando o mundo da Matemática Aplicada na minha vida. O trabalho como matemático pode render bons frutos, desde que você se renda à Matemática. Pessoalmente, acredito que tudo o que aprendemos na faculdade é apenas um pontapé para tudo o que existe. Você aprendeu a resolver derivadas, integrais e resolveu toneladas de exercícios para treinar, mas quando chega a prática, é difícil de se lembrar. Como é mesmo o Teorema de Green, Stokes… como resolver uma integral de linha, como calcular a área limitada por duas curvas… Tudo isso me faz pensar no meu dever de casa: se você é matemático, tem que saber Matemática! Certo? Sim, mas deve-se tomar o cuidado com isso: quem sabe algo sobre alguma coisa, tem a prática como guia. Começar é muito bom, mas é preciso praticar até que se esteja em condições de lutar. Empunhar a espada todos empunham, mas se preparar e chamar para o embate, apenas os treinados. Quem tem o conhecimento, tem a prática. Este é o meu quinto exemplo da Matemática, como a prática é importante e indispensável.

Já dizia o Prof. Laércio,

A Matemática entra pelos dedos.

Atualmente, vivo situações em que me vejo sendo “empurrado” para aqueles dois tipos de “cultura” de Matemáticos, a dos criadores de teorias e a dos resolvedores de problemas. Enquando o primeiro engloba aqueles que “fazem a ciência” (o que definitivamente não é o meu caso, embora algumas pessoas possam acreditar nisso…), o segundo engloba aqueles interessados em encontrar e solucionar problemas. Um grande exemplo do primeiro caso, é o Artur Avila, um grande exemplo de matemático criador de teorias (um texto muito interessante sobre a formação de um matemático pode ser lido aqui). Acredito que matemáticos desta espécie são mais raros, ou que seu sucesso é alcançado em longo prazo (a menos que você tenha uma mente realmente privilegiada). Matemáticos da outa cultura, os resolvedores de problemas, são mais fáceis de se encontrar. Sinceramente, ainda não sei em que categoria de matemáticos eu poderia me enquadrar, aliás, se sou um matemático de verdade, não pertenço à nenhuma das duas culturas citadas. Eu acho sou um matemático pensador. Estou mais para a filosofia da Matemática do que para Matemática da filosofia ou dos problemas reais. E esse tipo de pensamento, tem uma explicação:

Não há como formar um professor de Matemática ou um Matemático sem um pouco de muita filosofia, independente de seu talento, seja criando teorias ou resolvendo problemas. Este deve ser um começo obrigatório, o resto a experiência e a prática lhe dará.

Este é o meu sexto exemplo da Matemática, como a Filosofia é importante na formação de um profissional que deseja trabalhar no ensino ou na pesquisa. Um texto muito importante sobre esta discussão “The Two Cultures of Mathematics (de W. T. Gowers – uma visão sobre o texto original “The Two Cultures”, de C. P. Snow, 1959)”, disponível aqui.

E depois de tudo isso, posso dizer que a Matemática me proporciona grandes desafios. O problema não valerá a pena se não desafiar a sua inteligência, a sua paciência e a sua inércia. Quem quer chegar em algum lugar, tem que se movimentar, tem que fazer valer o esforço. Em ciência, faz-se muito esforço para extrair uma gota de “suor”, e todos estes exemplos é que me garantem a visão de que ser professor ou ser matemático é um grande desafio, porém é a própria natureza da Matemática quem vai lhe garantir os problemas a serem seguidos.

Esta é a minha experiência com a Matemática, algo que nunca será terminado, algo que não possui fronteiras e que se expande a cada dia.

Se você também quer contar a sua experiência, faça um comentário abaixo ou entre em contato comigo aqui.

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Autor: cfbastarz

craftmind.wordpress.com

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